
Embora seja um gênero estruturado em ações do dia a dia, a crônica exige um difícil exercício de reflexão sobre nosso cotidiano. Refletir é uma ação que exige flexibilidade, aceitação e análise e, por isso, se torna uma realização árdua para todos nós. A crônica proporciona ao leitor também identificar-se com as situações do texto, enxergando a si mesmo, como se olhasse num espelho. Nossa missão é difícil, mas tentamos atingir nossas metas. Esperamos que todos gostem. Boa leitura!
A TOMADA
Acordei. Mais um dia de trabalho importante! Reunião de pais na escola, não posso me atrasar!
Meu Deus! Já são seis horas! Perdi a hora! Levantei depressa e me lembrei que tinha que levar meu vestido à lavanderia para festa de sábado, afinal pedi para o Rafael fazer isso, mas marido parece que é surdo ou tem Alzheimer!
Fui escovar meus dentes e me deparei com o tubo de pasta vazio, de novo! Na certa a criançada usou e abusou. Quando fui lavar o rosto notei que o sabonete estava cheio de pasta de dente. Eu mato essas crianças! Trim... trim...trim...trim...trim...trim...
A campainha toca sem parar. Já vou indo! Limpei e enxuguei meu rosto rapidamente. Sai do banheiro para atender a porta. Ai! Quase caí na escada! Alguém deixou um skate num degrau e por pouco não me esborrachei.
Cheguei finalmente à porta. A chave emperrou! Que droga! É hoje! Não conseguia destrancar a porta e lembrei que seu Inácio, aquele chaveiro tratante, disse que precisava usar grafite parar melhorar a fechadura! Onde eu vou achar grafite essa hora? Ah, abriu! Olhei, olhei e não vi ninguém. Quando olhei para baixo me deparei com um homem caído no capacho da porta. Corri, mas não vi ninguém no corredor, nada, nem sinal de viva alma! Só comigo acontece essas coisas! Testemunha de um assassinato... Ou teria sido morte natural? Então abaixei devagar e com muito medo, com as mãos trêmulas, toquei naquele corpo gélido e duro, era mesmo um cadáver!
Entrei correndo e fui até ao telefone, tremia, mas determinada chamei a polícia e pedi que viessem rápido. Tenho um cadáver em minha porta, moço!
Fechei a porta e aguardei. Não sabia o que fazer. Atrasada, quarenta e cinco pais me esperando e eu aqui refém de um cadáver! Na loteria eu não ganho!
Tocaram a campainha. Nossa que rápido! Quando seu Antônio do 203 enfartou a polícia demorou cinco horas para chegar! Abri a porta! Não era a polícia! Cadáver moça? Que cadáver? Somos da equipe de cinema. Precisávamos de uma tomada impactante! A senhora foi perfeita! Tenha um bom dia! Ah, seu cachê foi entregue pro seu Rafael.
O pior é que eu vou contar pra coordenadora e duvido que ela vai acreditar em mim! Ai, meu Deus!
MARIA DA PENHA DE ABREU ORLANDO
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